Publicado por: alexandra | fevereiro 10, 2008

De amor e de guerra ²

“Não sei com que armas os homens lutarão na Terceira Guerra,
mas – na Quarta – será a pau e pedra.” (Einstein)

“Os homens amam a guerra. Por isso se armam festivos em coro e cores para o dúbio esporte da morte. Amam e não disfarçam. Alardeiam esse amor nas praças, criam manuais e escolas, alçando bandeiras e recolhendo caixões, entoando slogans e sepultando canções.Os homens amam a guerra. Mas não a amam só com a coragem do atleta e a empáfia militar, mas com a piedosa voz do sacerdote que antes do combate serve a hóstia da morte. Foi assim na Criméia e Tróia, na Eritréia e Angola, na Mongólia e Argélia, no Saara e agora. Os homens amam a guerra e mal suportam a paz. Os homens amam a guerra, portanto, não há perigo de paz. Os homens amam a guerra, profana ou santa, tanto faz. Os homens têm a guerra como amante, embora esposem a paz. E que arroubos, meu Deus! nesse encontro voraz! que prazeres! que uivos! que ais! que sublimes perversões urdidas na mortalha dos lençóis, lambuzando a cama ou campo de batalha. Durante séculos pensei que a guerra fosse o desvio e a paz a rota. Enganei-me. São paralelas margens de um mesmo rio, a mão e a luva, o pé e a bota. Mais que gêmeas são xifópagas, par e ímpar, sorte e azar são o ouroboro – cobra circular eternamente a nos devorar.A guerra não é um entreato. É parte do espetáculo. E não é tragédia apenas, é comédia, real ou popular, é algo melhor que circo: – é onde o alegre trapezista vestido de kamikase salta sem rede e suporte, quebram-se todos os pratos e o contorcionista se parte no kamasutra da morte. A guerra não é o avesso da paz. É seu berço e seio complementar. E o horror não é o inverso do belo – é seu par. Os homens amam o belo mas gostam do horror na arte. O horror não é escuro, é a contraparte da luz. Lúcifer é Lubel, brilha como Gabriel e o terror seduz. Nada mais sedutor que Cristo morto na cruz. Portanto, a guerra não é só missa que oficia o padre, ciência que alucina o sábio, esporte que fascina o forte. A guerra é arte. E com o ardor dos vanguardistas frequentamos a bienal do horror e inauguramos a Bauhaus da morte. Por isso, em cima da carniça não há urubu, chacais, abutres, hienas. Há lindas garças de alumínio, serenas, num eletrônico balé.Talvez fosse a dança da morte, patética. Não é . É apenas outra lição de estética. Daí que os soldados modernos são como médico e engenheiro e nenhum ministro da guerra usa roupa de açougueiro. Guerra é guerra! dizia o invasor violento violentando a freira no convento. Guerra é guerra! dizia a estátua do almirante com a boca de cimento. Guerra é guerra! dizemos no radar desgustando o inimigo ao norte do paladar. Não é preciso disfarçar o amor à guerra, com história de amor à pátria e defesa do lar. Amamos a guerra e a paz, em bigamia exemplar. Eu, poeta moderno ou o eterno Baudelaire eu e você, hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère. Queremos a batalha, aviões em chamas navios afundando, o espetacular confronto. De manhã abrimos vísceras de peixes com a ponta das baionetas e ao som da culinária trombeta enfiamos adagas em nossos porcos e requintamos de medalha – os mortos sobre a mesa. Se possível, a carne limpa, sem sangue. Que o míssil silente lançado à distância não respingue em nossa roupa. Mas se for preciso um banho de sangue – como dizia Terêncio: – sou humano e nada do que é humano me é estranho.A morte e a guerra não mais me pegam ao acaso. Inscrevo sua dupla efígie na pedra como se o dado de minha sorte já não rolasse ao azar, como se passasse do branco ao preto e ao branco retornasse sem nunca me sombrear. Que venha a guerra! Cruel. Total. O atômico clarim e a gênese do fim. Cauto, como convém aos sábios, primeiro bradarei contra esse fato. Mas, voraz como convém à espécie, ao ver que invadem meus quintais, das folhas da bananeira inventarei a ideológica bandeira e explodirei o corpo do inimigo antes que ataque. E, se ele não atirar primeiro, aproveito seu descuido de homem fraco, invado sua casa realizando minha fome milenar de canibal rugindo sob a máscara de homem. – Terrível é o teu discurso, poeta! – Escuto alguém falar. Terrível o foi elaborar. Agora me sinto livre. A morte e a guerra já não podem me alarmar. Como Édipo perplexo decifrei-a em minhas vísceras antes que a dúbia esfinge pudesse me devorar. Nem cínico nem triste. Animal humano, vou em marcha, danças, preces para o grande carnaval. Soldado, penitente, poeta – a paz e a guerra, a vida e a morte me aguardam – num atômico funeral. – Acabará a espécie humana sobre a Terra? Não. Hão de sobrar um novo Adão e Eva a refazer o amor, e dois irmãos: – Caim e Abel – a reinventar a guerra.”
(Affonso Romano de Sant’Anna)

Responses

  1. Infelizmente tenho que concordar com o texto (e com a frase brilhante de Einstein)
    Mas sabe.. ainda acredito na recuperação do Homem..😉
    Bjokas primoka


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