Publicado por: alexandra | dezembro 14, 2008

‘Lutar ou Correr’?

warriorwomanA natureza dotou o sistema nervoso dos seres vivos com respostas muito semelhantes diante de situações de perigo. Mas só uma das espécies tem o hábito de desenvolver efeitos traumáticos duradouros depois do evento. Sim, claro, nós, os seres humanos. Os outros animais só apresentam o mesmo nível de estresse quando são domesticados ou sujeitos a laboratórios inventados por nós.

A parte do nosso cérebro responsável pelos instintos é o cérebro reptiliano – o qual compartilhamos com todos os outros animais. Ele é que assegura a sobrevivência da espécie (autopreservação, reprodução, funções vitais). O lagarto não pára para pensar se está com fome ou se o inseto está limpo ou quantas calorias o inseto tem, ele simplesmente o come. São rituais como o de comer, beber, procriar, dormir, fugir, lutar, que se repetem. E por quê? Porque funcionam. Não são coisas das quais você precisa planejar ou se lembrar como se faz.

A estrutura um pouco mais elaborada que a parte reptiliana do cérebro é o sistema límbico cerebral. Nele acontecem os comportamentos emocionais e sociais complexos. Ele não substitui o instinto, só o complementa. Isso dá aos mamíferos mais escolhas do que aos répteis. No ser humano, o instinto, a emoção e o intelecto vão funcionar juntos para uma possibilidade ainda mais ampla de escolhas. Para isso, é preciso observar o ambiente onde nos inserimos.

Mudanças no ambiente geram respostas. O corpo nos dá essa sintonia. Sintonizado com o ambiente, somos mais conscientes de nossas ações e reações, e das reações dos outros. O comportamento que apresentamos em resposta a alguma novidade no nosso ambiente chama-se ‘resposta de orientação‘. É por ela que nos afastamos de coisas que nos perturbam (como uma fonte de perigo) e nos aproximamos de coisas agradáveis (como amigos e comida em potencial). As respostas de orientação costumam se fundir e se adaptar para permitir uma variedade maior de reações e escolhas.

Mas há uma gama de comportamentos primitivos que são anteriores até mesmo aos répteis. Existem desde insetos até nós. São o: lutar, fugir e congelar. Um animal irá lutar se a situação evocar agressão. Irá fugir se houver uma possibilidade de perder a luta e tiver como escapar. Mas quando nem a luta nem a fuga funcionariam, a imobilidade (congelamento) será a terceira alternativa para manter a segurança do animal. Muitos predadores não matam nem comem um animal imóvel, a não ser que estejam extremamente famintos. Primeiro porque a imitação da morte os faz pensar que a carne pode já estar estragada, e com essa ilusão a presa espera o momento certo para ter a chance de fugir. Segundo que presas imóveis podem passar como camufladas no ambiente, sem serem percebidas. Além disso, alguns animais só são capazes de perceber a presa quando ela se mexe. E, para completar, um corpo inerte não evoca agressão e ataque.

Sucesso não significa ganhar, significa sobreviver, não importa como. A natureza não julga uma estratégia que você use como superior ou não a outra. A diferença é que os animais não ligam quando se fingem de mortos. Só o ser humano pega a experiência do congelamento e a transforma em terror. Também é só o ser humano que pega a resposta frustrada de luta e a transforma em raiva, ou pega a resposta de fuga e a transforma em sensação de impotência.

Isso acontece quando o neocórtex (a parte racional do cérebro) influencia na parte reptiliana e não guia a cura do trauma pela descarga de energia. O neocórtex deveria elaborar a informação instintiva, mas quando – em vez de fazer isso – ele a controla, ele não deixa o ciclo instintivo chegar ao final e gera o trauma. Então, o medo se estende e deixa o indivíduo ainda mais imóvel, e ainda transforma essa imobilidade em algo assustador. O indivíduo paralisa de medo, não consegue se mexer. Por quê? Porque ele já entrou no estado de “congelamento” despreparado. Em vez de começar com um alerta relaxado e hipervigilância tensa, ele começa com terror e estresse, e acaba saindo do estado da mesma forma que entrou, ou pior: com uma vontade violenta de agredir. Por isso tantos de nós saem do choque querendo matar quem nos causou aquilo. Outros se assustam tanto com esse desejo de comportamento agressivo que – em vez de externar – trazem a raiva para dentro de si, implodindo em depressões, ansiedades, estresses.

O curioso é que, teoricamente, os animais podem morrer de “overdose de mobilidade”: de tanto mandar mensagem ao cérebro de que o animal está morto, um dia o cérebro pode concordar. Mas não é o que normalmente acontece, o mais comum é a parte reptiliana entender isso e gerar uma descarga de tremores para completar o ciclo e tirá-lo da imobilidade. Já os seres humanos não sabem o que fazer ou não percebem que precisam fazer algo, então ficam com essa baixa tolerância a entrar e sair da mobilidade, fazendo com que uma grande porção indigesta e mal-resolvida acabe ficando. E, a partir dessa coisa desregulada, é que os sintomas criam raízes, como válvulas de segurança: anorexia, insônia, hiperatividade, manias, promiscuidade, dissociação, devaneios, amnésia, vícios, terrores noturnos, paralisia, asma etc.

Platão dizia que uma vida não examinada era indigna de se viver. Dostoievski dizia que ninguém pode viver sem ser capaz de explicar para si mesmo o que acontece consigo, e se um dia não conseguir mais explicar, tal pessoa dirá que enlouqueceu, como alternativa de explicação. Quando não conseguimos explicar o que nos ameaça, armamos inconscientemente nossas próprias armadilhas. O neocórtex fica tentando explicar enquanto o lado reptiliano se impulsiona a agir. A solução seria permitir que este último completasse seu ciclo de ação, descarregando a energia que falta, a energia fonte de seu medo, de sua paralisia.

A vida já é suficientemente difícil quando somos saudáveis e cheios de vida, imagine o quão insuportável ela pode ser quando estamos fragmentados pelo trauma!

Então, tente não pensar no que causou o trauma, mas nos sintomas, na sua resposta de orientação. O que realmente aconteceu, o fato, não é tão importante, mas sim como você reage a ele. Tente usar sua sensopercepção. O próprio corpo nos mostra onde estão nossos bloqueios. Como caçadores, sabemos quando a presa está doente, faminta, ferida, cansada, se esteve dormindo, se acasalando, caçando, vemos pelas pegadas onde ele esteve ou de onde bebeu. Nós perdemos muito disso. E ainda fizemos pior, pois criamos uma cultura onde se é preferível internalizar as coisas do que externá-las, mas atuar para dentro é tão violento quanto para fora. Não é a toa que tantos filmes falam de justiça e vingança. O problema é que essa “vingança” vem junto com a vergonha e a culpa. Você sente um orgulho e alívio temporários que não descarregam a energia instintiva.

Precisamos aprender a ouvir nossos sonhos, sentimentos, imagens, sensações, os animais sagrados que nos habitam e nos fazem parte do mundo, que nos conectam à natureza e ao divino, que nos liberam de nossas questões não-resolvidas (ou mal-resolvidas) e nos libertam para viver como seres completos. Precisamos transformar ansiedade em confiança. Precisamos desafiar as nossas próprias crenças.

O mundo é um lugar onde coisas ruins acontecem, mas elas podem ser superadas, senão não teriam sentido!

“Ponho a vida em risco para salvar minha alma.” (Tim Cahill)
“O que não me mata, me torna mais forte.” (Nietzsche)
“O importante não é o que fizeram de mim, mas o que eu vou fazer com o que fizeram de mim.” (Sartre)

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Referência: “O Despertar do Tigre – Curando o Trauma” (Peter A. Levine & Ann Frederick), Summus Editorial.


Responses

  1. Oie, só pra fincar minha passada no teu blog. Escreves muito bem!!! quando eu crescer, quero ficar assim tb!😛 Küsse


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