Publicado por: alexandra | março 5, 2009

Devoção é uma Arte de Guerreir@ (Devotion is a Warrior’s Art)

No deserto do meu coração você veio.
Senhora do fogo, você me despiu.
Com fogo e calor abrasador você me abriu,
Ó Implacável.
Poderosa Deusa Guerreira,
Você me devorou,
rasgou a carne do relicário definhado do meu coração,
corroeu os ossos gastos do meu espírito.
Você se alimentou na minha dor
até que eu não pudesse correr,
não pudesse escapar,
não pudesse implorar, suplicar, ou chorar.
E, ao fazer isso,
Você me concedeu o dom
da totalidade.

Eu sempre fui atraída às artes da guerra. É uma paixão profundamente arraigada que pelos anos me afiou e afiou a minha espiritualidade. Pegar uma espada pela primeira vez quando comecei meus estudos de Iaido já adulta foi como voltar para casa. Fechar minhas mãos em volta de uma Glock 9mm pela primeira vez, ao aprender a atirar, foi mais ainda. Há uma paz no domicílio do guerreiro, uma serenidade calma não procurada que vem depois, inesperada e que surge como uma consequência natural da disciplina e do intensamente poderoso foco necessário para a mestria dessas artes. Para mim, não foi tornar-me pagã da virgem, mãe e anciã. Não, eu instintivamente sabia que eu seria arrastada a um tipo diferente de deusa.

Desde o comecinho, eu procurei deusas guerreiras: Sekhmet, Kali, Morrigan… Especialmente Sekhmet, a deusa que festeja ao trazer a morte ao fio das armas, ao conquistar o terror da lâmina da faca de mortalidade iminente, ao temperar o ‘playground’ caótico das emoções de alguém e ao viver uma vida com um propósito simples em mente; Deusas que entendem a violência e o mistério inexorável disso. Claro, naqueles dias – há uns 15 anos atrás – ninguém realmente falava das deusas guerra. Era um assunto proibido, como se o caminho do guerreiro fosse diametricalmente oposto a qualquer caminho espiritual afinal. Para mim nunca foi assim. Para mim, era um caminho contínuo de severa claridade. Claro, eu aprendi muito cedo que nem tudo que é severo é ruim.

Eu fui pega por Sekhmet muito cedo nos meus dias de Fraternidade de Ísis, e no final acabei me tornando sua sacerdotisa. No final, ela me levou até Odin e Loki e me entregou as rédeas se eu quisesse, mas mesmo assim ela permanecerá sempre e para sempre minha Mãe. As lições dela eram severas e seu treino era implacável. Em muitos respeitos, ela me preparou não apenas para Odin, mas para o trabalho que ele teria para mim. Ela me tornou uma guerreira, me quebrou e me afiou, e eu emergi melhor por causa disso. Toda noite, por um ano, eu fiz preces a Sekhmet. Eu fiz preces de que ela me queimasse, me purificasse, me arrancasse tudo que poderia interferir com minha espiritualidade. Eu pedi para que ela fizesse de mim a mais útil das ferramentas. (Esse é um segredo que a maioria dos guerreiros não irá pensar em contar: o maior elogio que podemos dar é esse: dizer que alguém foi usado). Ela me pegou pelas minhas palavras. Eu descobri bem rapidamente que essa era uma coisa a se pedir a uma deusa ou deus. Não há necessidade de responsabilidade na mera pronúncia de palavras. Há esperança. Há desejo. Poderia ser um compromisso, mas se a prece de alguém não é imediatamente respondida, é fácil o suficiente voltar para trás, se afastar, em segurança no próprio mundo da pessoa. Mas quando a gente recebe uma resposta definitiva é que o mundo inteiro se despedaça. Nada será o mesmo novamente.

Sekhmet me destruiu.

Ela pegou uma criança impulsiva e me despiu. Ela fez daquela criança uma devota e uma sacerdotisa. Ela preparou meu coração para a devoção, o serviço, o amor. Ela tomou de mim minha profissão, meu apartamento, aqueles à minha volta que tinha sido amigos e guias espirituais. Ela me deixou nua e devastada e angustiada. E eu lhe sou grata. Ela me levou a lugar de desolação dão profundo que eu tinha apenas ela para me sustentar, apenas ela para quem me voltar. Eu precisava daquilo. Eu precisava ser reduzida à simplicidade, à humildade e ao estado bruto, ao desejo não-afiado. Eu precisava ser quebrada.

Eu servi Sekhmet por muitos anos. Até hoje, eu presto homenagem a Ela por colocar meus pés no caminho de uma guerreira, por nomear aquelas coisas que eu sabia que residiam dentro de mim, por me dar a coração para viver como Ela desejava. Aquelas coisas que aprendi a Seus pés me prepararam não apenas para o sacerdócio, mas para uma vida de devoção centrada. De todos os dons que aprendi, tanto da deusa da guerra quanto do meu estudo de artes de guerreiros, o mais inestimável foi esse: quando escolhi me comprometer com os meus deuses, eu o fiz plenamente. Quando coloquei meus pés no caminho que um dia me levaria a me tornar inextricavelmente ligada a Woden – como minha vida está agora – foram aquelas lições aprendidas no fio de uma lâmina de guerreira que me prepararam para esse compromisso.

Ah, Sekhmet parecia tão cruel na época. Ela me pegou logo na mão e me despiu. Eu, que tinha brincado de ser guerreira por tanto tempo, que tinha ansiado por uma rigidez no treinamento, aprendi cedo o suficiente o que significava pertencer a tamanha Deusa. A compaixão de uma Deusa Guerreira é a compaixão mais implacável de todas. Ela não deixa espaço para emoção ou sentimento, nenhum espaço para a dúvida ou o medo ou o arrependimento. Todas essas coisas devem ser sacrificadas. Todas essas coisas são entregues em prol do dever de um puja interminável. Com ela, eu aprendi o valor do conflito. Eu aprendi que, dentro de mim, no meu centro mais profundo, jazia uma fera de raiva e fúria, uma matadora que devoraria tudo o que eu considerava querido na minha vida se eu deixasse. Oh, eu tinha temperamento. Eu ainda tenho, embora eu me debata duramente para não lhe dar um reino livre. Minha raiva ferveria em palavras e ações comendo fora minha integridade, reputação e amizades. Ninguém mais poderia acalmar aquela fera. Era para mim, para que eu reinasse nela. E esse era um dever no qual eu estava falhando. Eu me vi no espelho de Seu fogo como nunca esperava me ver novamente. Ela me despedaçou no primeiro ano e então lentamente começou o processo de reconstrução. Olhando para trás, para esse processo que começou anos antes de eu sequer conscientemente pronunciar o nome dEla, eu percebo que Ela estava me dando exatamente o que eu precisava. Ela estava me temperando como uma lâmina é temperada na forja quente: sendo amassada, martelada, moldada e batida continuamente, sujeita às chamas fortalecedoras de novo e de novo. Receio ter sido muito teimosa e levou um longo tempo até eu plenamente aceitar o precioso dom da auto-disciplina que ela me oferecia.

No final, eu aprendi a governar (ao menos um pouco mais) a fera de raiva que me habitava. Eu, que tinha um temperamento vicioso e um físico e treinamento suficientes para ser perigosa, aprendi a refrear. Eu, tão profundamente apaixonada por tudo que eu fiz pro bem ou pro mal, aprendi a governar minhas paixões. Eu aprendi a examinar as emoçoes cuidadosamente e então deixá-las de lado. “Uma guerreira age primeiro pelo dever”, Ela me ensinou. “E ela não teme viver”. Não há fachadas com essas deusas, não há espaço para sentimento, não há como se esconder das verdades, ainda que dolorosas. E, principalmente, não há segurança. Ela e apenas Ela me ensinou a amar meus Deuses sem condição, a dar um passo para dentro do fogo do êxtase e da inspiração que Eles trazem e voluntariamente solicitar um sacrifício. Foi a Guerreira que fez de mim uma pessoa mística.

Eu aprendi a fazer preces com uma espada na mão – ou uma arma, já que acho uma pistola de tiro algo extremamente calmante e meditativo. É um gelo para o calor da canção da espada. Eu aprendi através de treinamento estrito a procurar um centro infalível, a não permitir que nada me detesse de ir atrás dos meus objetivos, nem meu próprio ego, nem minha própria resistência teimosa a mudar, ou minha própria preguiça, ou um aborrecimento emocional, e certamente ninguém ou nada de fora de mim mesma. Eu aprendi a procurar os deuses com uma certeza inabalável que assusta até a mim mesma quando penso nisso. Ela se certificou de que eu nunca seria uma escrava do meu próprio medo, dos meus próprios desejos, do meu próprio orgulho ou ego ou ‘hybris’. Eu era dolorosamente jovem quando cheguei a Ela, e tão faminta de conhecimento… Sekhmet, ao me tomar na mão, me empurrou bem rapidamente em um sério estudo das artes marciais. Isso, é claro, não é nenhum sofrimento. Minha única dificuldade tinha a ver com o decidir o que estudar! De todas as armas do mundo, a katana sempre exerceu um grande fascínio em mim. Ela apresenta linhas limpas e quase inflexíveis e deve ser empunhada com uma precisão implacável que faz o meu espírito se rejubilar. Depois de observar uma aula no dojo local, eu sabia que eu tinha encontrado a arte marcial para mim. A única alegria comparável a essa foi o momento em que, alguns anos depois, eu aprendi a atirar com uma arma de fogo. Através dos anos, os Deuses usaram meu estudo de Iaido como um paralelo muito visível para a minha saúde espiritual. Meu trabalho no dojo chegou a ser o de refletir, às vezes a proporções assustadoras, o trabalho que eu estava fazendo espiritualmente e qual o progresso (ou não) que eu estava fazendo.

O melhor de tudo, no dojo, é que minha natureza agressiva é considerada uma virtude, embora ela precise de direção, a qual a discipina física do próprio treino provém. Na primeiríssima aula que eu fiz, em um dos dias mais quentes de verão, eu quase desmaiei. Eu verdadeiramente achei que iria morrer. Mas a gente se adapta, e um pouco de dor é bom para o espírito. Essa é uma coisa desconfortável, porém, esse processo de despojamento. Por isso é que eu me comprometi, pela virtude de meu compromisso a meus Deuses, a continuamente fazer isso. Quando entrei no dojo, eu fui levada de volta ao começo, e forçada a ganhar aquelas habilidades e auto-controle que eu deveria ter treinado há anos atrás, bem antes de eu sequer me tornar uma adulta. Eu sou uma criança novamente, procurando desajeitadamente por compreensão/conhecimento. Minha meditação e mágica veio parar no plano material, em um salão de treinamento rígido e em uma infinita repetição de ‘kata’; meu ritual de vestir o ‘hakama’ e o ‘gi’; minha libação de suor, mãos sangrando e músculos doendo. (Essas aulas iniciais durante o verão fizeram com que, pela primeira vez na minha vida, eu ficasse tão solorida que simplesmente me sentei em casa e chorei.) Isso tudo foi do agrado de Sekhmet. Quando Ela me cedeu de seus braços, passando-me para os braços e auspícios de Woden (um Deus conhecido por sua predileção por mulheres fortes), eu era uma criatura completamente diferente daquela que tinha primeiro procurado os Deuses.

Através Dela, eu fui forjada como algo, alguém, que poderia estar a serviço do Deus que eu amava mais do que tudo. Oh, eu me sinto profundamente apaixonada por Woden e o serviço a Ele logo começou a governar minha vida. Amar um Deus tão profundamente que você se dispõe a procurar compartilhar da dor Deles requer um desejo forte suficiente para garantir proximidade com a realidade aterrorizante do numinoso. Isso requer uma vontade e um sentido de se auto-forjar em pedra, uma que não irá quebrar sob o peso do dever, nem procurar pela segurança de uma imaginação e conforto pessoal. Eu tenho muitas falhas (meu temperamento, por exemplo, continua sendo uma lembrança constante de que eu estou LONGE de ser perfeita!), mas uma coisa pequena que aprendi – e que apenas um guerreiro pode aprender – foi a: quando não há nada mais a ser feito, no meio das mais tumultuosas das tempestades, segurar rápido e aguentar. Eu gosto de esperar que esta qualidade tenha me capacitado a ser de alguma utilidade para Woden e os outros Deuses que adoro. Pelo menos, eu acho que ela garante que eu não seja bem um fardo.

Eu me preocupo quando encontro pessoas que são arrastadas à idéia de ser um servo de Deus ou se tornar um xamã. Aqueles de nós que passaram pela quebra, pela morte, o re-forjamento responde a aquelas perguntas inocentes com um “não, você não sabe mesmo o que isso acarreta. Corra agora, enquanto ainda tem a liberdade de fazê-lo”. Observar os noviços pulando de cabeça dentro do “xamanismo” sem qualquer preparação, sem qualquer idéia do que o ‘xamanismo’ realmente acarreta, me arrepia até a alma. Eles não entendem que podem não sobreviver à jornada. Aqueles que fazem isso sem uma forte prática devocional, sem uma conexão forte a uma deidade específica (que irá também cuidar da pessoa em questão), torna isso muito mais difícil. A devoção pode envolver abertura de coração e uma rendição do espírito, mas com isso ela exige uma tremenda coragem. Mais do que explorar o ‘xamanismo’, eu encorajaria a – qualquer que fosse o espírito com o qual se fosse trabalhar – primeiro deixar sua “casa” espiritual em ordem. A começar pela devoção. Permitir que a devoção leve à força, à disciplina, e a outros treinamentos essenciais. Esta é uma coisa fundamental e frequentemente negligenciada. Essa não é apenas a única necessidade para sobreviver, nem de longe, mas certamente faz diferença.

Ser guerreira não é uma metáfora para mim. Continua incompreensível que alguem possa crescer no caminho espiritual sem nunca explorar e abraçar as qualidades tradicionalmente associadas com as coisas de guerreiros. Na minha vida, tanto a cotidiana quanto a devocional, elas continuam fundamentais, embora possam ser perturbadoras nessa época do politicamente correto. Andar nesse caminho me capacitou a crescer em devoção e amor e compromisso com os meus Deuses. Isso teve um impacto nas formas com que me relaciono com o mundo e nas formas nas quais eu sirvo a meus Deuses. Isso me tornou uma pessoa melhor. E devo isso a Sekhmet.

(por Galina Krasskova, traduzido por mim)


Responses

  1. E enquanto eu ia lendo, a dor infernal no meu joelho ia ficando diferente. Uma pulsação, não mais que isso.. e eu percebi que enquanto eu lia sobre essas coisas que são tão caras ao meu coração, eu me lembrava de onde eu vim e o que eu sou… e simplesmente deixava a dor passar através de mim sem lutar contra ela.

    valeu pela memória =)

  2. Nossa… seu jeito de escrever, me remeteu a um outro tempo… ando lendo a ARTE DA GUERRA, e não sou uma guerreira, mas de uma outra forma o sou.

    Obrigada pela tradução.

    Danni Aranda

  3. Aff, aff, afffff deixa eu respirar que esse texto me fez passar mallllll….

    Muié que texto é esseeeeee????

    Tô sem palavras, pq vc sabe o que mexe em mim esse texto….

    Contorceu as entranhas!!!!

    Vc realmente me deu um grande presente hoje!

  4. de nada, sarah e danni! ;D

    presente de aniversário adiantado, ky! rsrsrs

  5. Estou encantada com esse texto.

    Engraçado como passamos processos diferentes, com diferentes deuses, e no fim todos nos levam para o mesmo lugar, para uma consciência muito semelhante da guerra e do papel do guerreiro.


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