Tribo

Nota: Nossa tribo luta para ser um todo, uma nação coesa, não só entre nós, mas também dentro de nós, completas, e não sentirmos a necessidade de provar ou impor nada. Vendo dessa forma, é perfeitamente aceitável se inspirar em filmes, revistas, programas de televisão, livros, e outras ficções, para construirmos nosso modo de vida, pois vale a pena analisar a arte que se faz por aí com base em História e realidade, e trazer essa realidade de volta ao dia-a-dia feminino.

ARTIGOS

1. As Amazonas em Hércules e em Xena
~ baseado no Projeto de Pesquisa nº327 da IAXS, escrito por Ed Baker em 1997, visto AQUI ~

No começo parece que todas são semelhantes: com as mesmas máscaras de totens animais, todas vivendo na floresta, usando as mesmas técnicas de combate, sob a mesma estrutura matriarcal e linhagem da rainha, e sem confiar muito nos homens. Mas termina aí.

A  tribo que aparece no filme de Hércules é uma que ganhou independência e a defende ferozmente, tem uma filosofia militar de força e resistência, se deleita em ter poder sobre os homens e em não ser subjugada ou viver numa sociedade dominada por eles; mas elas estão tão obcecadas que se tornaram tiranas, opressoras, escravagistas dos fracos homens da cidade, praticando os mesmos crimes dos quais antes acusavam os homens: falta de respeito, tomar o que querem, tratar o sexo oposto como um ser inferior ou propriedade.

Temos a rainha-líder (mais filósofa) Hipólita e a rainha-de-guerra Lísia, uma amazona tosca que depois “vê a luz”. Elas são as principais dali; Hipólita fazendo discursos da importância da autoridade feminina no mundo dos homens e alertando as seguidoras quanto as mentiras e males dos machos, e Lísia – tão masculina quanto os personagens homens do filme – tem um ódio total dos homens.

Essa tribo tem uma aliança com Hera, que ali aparece como alguém que quer se vingar de Héracles(Hércules) simplesmente por ele existir. Ela manipula Hipólita com ódio, levando-as a uma destruição ainda maior, nada a ver com a moderação que se espera dos verdadeiros deuses gregos. É uma sociedade que sai do controle. Os homens dali têm medo delas. São violentas, atacam quem ultrapassa a floresta e penduram os cadáveres como aviso. Há algumas que destoam, sentindo falta do filho ou sendo curiosas com relação aos homens, incluindo Hipólita quando conhece a bondade de Hércules.

Ainda que a população feminina dali tenha se adaptado muito melhor que a masculina, as duas partes ficam fragilizadas pela divisão. Aí Hércules tenta mostrar isso e pedir que se unam, e diz aos homens que “as mulheres precisam de respeito e lealdade”.

A coisa é bem diferente com relação às amazonas da série Xena. A amazona Terreis diz para Gabrielle uma das regras fundamentais das amazonas: as mulheres são capazes de estar no comando. Ela diz: “Esse é um mundo de homens não porque tem que ser assim, mas porque nós deixamos que ele seja”. Na série aparece uma tribo masculina, a dos centauros, inimiga delas (o que é natural entre uma sociedade essencialmente patriarcal e outra essencialmente matriarcal). Só que, enquanto as amazonas do filme sentiam falta dos homens, estas da série são completas do jeito que estão.

Há troca de filosofias e insultos entre os centauros e as amazonas, com problemas de comunicação/compreensão e questões de falta de confiança de ambas as partes, mas depois elas conseguem se entender e conviver ou sobreviver em harmonia. Tanto as amazonas quanto os centauros são independentes e capazes. Poderiam até ser aliados.

A rainha Melosa da série explica o sistema de crença das amazonas (o direito à casta, o período de luto etc) e acredita nessa filosofia – como a Hipólita do filme acreditava, mas Melosa não tem rancor contra os homens como a outra tinha. Melosa é pró-mulheres sem ser anti-homens.

A amazona Ephiny treina Gabrielle nas artes da guerra explicando o significado de cada arma. É ela também que questiona os centauros para tentanr entender a cultura deles. Digamos que ela é comprometida com o ideal amazona, mas mantém a mente aberta. Por quê? Porque o grupo dela é mais estável, mais seguro do seu próprio poder, e não precisa reinar sobre um grupo amedrontado de homens para provar alguma coisa a si mesmas. Mesmo sendo um grupo de mulheres, elas não forçam Ephiny a abandonar seu filho nem têm dificuldade em lidar com o opressor (homem) Krykus – elas não gostam dele porque ele é tosco e não porque ele é homem.

Esse grupo é mais tolerante com os forasteiros. Em vez de matar quem invade a floresta, elas até desejam que Xena fosse uma delas. Elas não se definem pelo que elas odeiam ou pelo que procuram conquistar ou mesmo pelo que elas NÃO são, mas sim pelo que elas SÃO. Qualquer sociedade secura de si terá menos problema ao lidar com o “outro”, o de fora, o diferente.

E aí a deusa patrona/padroeira/benfeitora delas é Ártemis. Ela é a deusa da caça, da virgindade, do poder feminino, sem tons de ódio ou violência contra os homens. Como suas adoradoras, ela é mais definida pelo que ela é do que pelo que ela odeia.

Uma sociedade que obtém sua força e identidade de dentro, do seu interior, será sempre mais estável e segura do que aquela que se define por pessoas de fora ou influências externas. As amazonas de Xena não vivem com a necessidade constante de ficar provando alguma coisa, exigindo ser vista ou tratada como igual, não sentem necessidade de dominar os homens.

Quanto às do filme de Hércules, ficar sempre tentando se provar é que enfraquece o grupo, como se o outro (os homens) fosse NECESSÁRIO para lhes dar equilíbrio. Já as da série Xena estão contentes com o respeito que têm, sem precisarem ser temidas. (OK, tirando a Velasca.)

As amazonas do filme de Hércules eram muito masculinas e não sabiam ter equilíbrio sem ajuda, sem se contrapor ao outro. Eram fêmeas nada femininas. As amazonas da série Xena tinham abraçado seus dois lados (masculino e feminino) e encontrado a harmonia por causa disso.

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2. As Mulheres  da Guerra
Artigo da Warriors Magazine originalmente postado em duas partes:
Parte 1
Parte 2

« Durante muitos séculos e em muitas culturas a figura feminina foi subjugada ou diminuída por sua fragilidade e delicadeza. Mas nem sempre foi assim. Em épocas específicas na história da humanidade existiu a exaltação da força feminina não somente em religiões mágicas (causa pela qual eram naturalmente reconhecidas ou por isso perseguidas), mas nas Artes de Guerra.

No Japão, no início do período feudal, essas mulheres eram conhecidas como mulheres Samurai. Dessas mulheres era esperado: lealdade, bravura e que tomassem para si o dever de vingança. Como o seu esposo guerreiro estava freqüentemente ausente, a esposa de um samurai também possuía importantes deveres domésticos. A responsabilidade dela se estendia desde o alimento até os fornecimentos para a casa. Ela supervisionava a colheita, direcionava todos os serventes e gerenciava todos os negócios financeiros. Nas questões que tangiam ao bem-estar da família, seus conselhos eram procurados e suas opiniões respeitadas. Era entregue a elas também a tarefa de educar adequadamente suas crianças, passando-lhes o forte senso de lealdade aos ideais samurai de coragem e força física.

Nas épocas de guerras, algumas vezes elas tinham que defender suas casas. Treinadas em armas, as mulheres carregavam adagas em suas mangas e possuíam a capacidade de atirá-las mortalmente. A naginata (espécie de lança com uma lâmina curva na ponta, como uma pequena espada) – variação de alabarda chinesa, era considerada a arma mais apropriada para mulheres.

No período Nara (710-94), os forjadores japoneses haviam forjado lâminas para armas como a naginata. Isso fez com que a arma pudesse ser utilizada tanto para combate contra o inimigo em pé ou a cavalo. Nessa época a cavalaria havia se tornado mais importante do que o grupo de frente a pé, e guerreiros montados eram muito difíceis de serem derrotados pelo arco e flecha ou mesmo pela espada.

Na Guerra de Tenkei (939-41), em que exércitos compostos por homens montados se confrontaram, a naginata chegou a ser tão importante que, dispensando o arco e a flecha no combate de distâncias curtas, promoveu o suporte à utilização da espada.

O décimo primeiro século de ascensão do bushi tornou a naginata uma arma popular de guerra, porém, devido ao tamanho e ao peso, ela certamente apresentava restrições em sua utilização. Para “abrir terreno” ela era perfeita, proporcionando um resultado favorável fácil e rápido, porém em florestas ou áreas confinadas, seu uso se tornava em desvantagem e de extrema restrição.

Em registros das guerras Hõgen e Heiji (1156-60) mostram com todos os detalhes do uso da naginata, e sugere que, nessa época, já havia se tornado uma arma bem estabelecida, e não meramente de combate.

A naginata antiga consiste simplesmente de um bastão com uma lâmina longa. Um protetor para a mão foi colocado mais tarde. A naginata era normalmente empregada diretamente contra a anatomia do inimigo, e o princípio do movimento circular adquiriu a perfeição na naginata. De uma distância segura, a naginata poderia manter a espada do inimigo embainhada usando um gasto mínimo de energia.

Na Guerra Gempei (1180), quando os Taira confrontaram os Minamoto, a naginata subiu a uma posição de grande importância. Ela se tornou famosa por Benkei, o guarda-costa de Yoshitsune, um grande e forte homem, que não era incomodado por outros pela sua capacidade de luta e que era mestre na utilização da naginata, um terror para todos os homens que se opusesse a ele.

Enquanto a naginata havia figurado o treinamento das mulheres dos bushi nos tempos Heian, estava agora restrita a elas inteiramente. Para as mulheres, a naginatajutsu agiu como um contra-balanceamento em suas vidas sedentárias e, no meio do período Edo, tornou-se fascinante para as mulheres engajar homens em combates regulares utilizando protetores com os utilizados no kendo.

O Jikishin Ryu, fundado por Yamada Heizaemon Mitsumori, é um excelente exemplo do uso da naginata modificada para mulheres. Durante o Período Meiji e Taisho a naginata sofreu um grande declínio como uma arma de guerra e passou a ser apenas vital para esses ryu, que a tinham como “Do”. Muitas jovens japonesas hoje dão continuidade a Naginata-jutsu aprendendo seu manuseio.

Voltando às mulheres samurai, algumas vezes, no entanto, as mulheres se uniam aos homens nas batalhas, lutando ao lado deles ou encorajando as tropas, e, como de seus maridos, era esperado delas cometerem suicídio caso a família fosse desonrada de alguma forma. Algumas utilizavam o suicídio como forma de protesto contra a injustiça, assim como em situações de maus tratos pelo marido.

Um exemplo da continuidade do poder das mulheres samurai no início do período feudal é Hojo Masa-ko. Essa forte mulher que reinou no shogunato após a morte de seu marido, o primeiro shogun Yoritomo Minamoto, morto em 1199, manobrou rapidamente sua família – clã Hojo – para a regência de seu filho Yoriie. Quando mais velha, foi ela quem reanimou o exército do shogunato que esmagou as forças do imperador Go-Toba em 1221. Os Hojo permaneceram como regentes por toda a sucessão dos shogun Minamoto por mais um século e meio. Por essa razão Hojo Masa-ko ficou conhecida como “Mãe Shogun” e se tornou referência como fundadora do shogunato.

Com o passar dos tempos a mulher independente samurai foi substituída por uma imagem que descrevesse o ideal de uma mulher: obediente, controlada e principalmente subserviente ao homem. Ser respeitosa para com o homem e para com a família e geradora de filhos homens era uma das mais importantes tarefas.

No final da era feudal, a “lei do primogênito” prevaleceu em disputas crescentes por propriedades, o que resultou no abandono dos direitos de herança sobre a propriedade à mulheres. Além disso, elas suportaram a deteriorização da posição feminina pelas doutrinas budista e confucionista, que desintegraram a intelectualidade e a capacidade moral da mulher. Após o séc XV os ensinamentos eram compostos de “Três Obediências” designadas à mulher: “Uma mulher não possui nenhum tipo de independência sobre a própria vida. Quando ainda é jovem, deve obediência ao pai; quando se casa, deve obediência ao marido; quando envelhece, obedece ao filho.”

Mas não só no Japão elas podem ser encontradas. Outras histórias de mulheres guerreiras encantaram o mundo com suas lendas e mitos.

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Desde antes de Cristo que se falava na existência de mulheres guerreiras, que viviam sós, isoladas dos homens com os quais se encontrariam para fins de acasalamento e, assim mesmo, ficando para criar apenas as crianças do sexo feminino. Eram as amazonas – do grego a (não, sem) e mazós (seios) – ou seja, as mulheres sem seios ou sem um dos seios, pois tais mulheres, quando ainda jovens, deviam queimar, retirar ou atrofiar o seio direito a fim de facilitar o manejo do arco.

Difundido mais diretamente pela mitologia grega, o mito das Amazonas antecede essa cultura, sendo encontradas referências em culturas pré-helênicas que viviam às margens do Mar Negro (Cítia) e no norte da África, onde o mito relata mulheres conquistadoras que combatiam duas a duas, unidas por cintos e juramentos, e teriam subjugado os númides, etíopeos e os atlantas africanos, americanos ou oceânicos. O nome “amazonas” denota também “ligação” (do grego ama = união + zona = cinto), sendo o cinto também identificado como guardião de seu voto de virgindade.

Na Ilíada de Homero e nos livros de Heródoto são apresentadas como numerosas, decididas e insignes com os cavalos; comunicavam-se através de curtos e rápidos diálogos, possuíam espírito aventureiro, fundaram cidades, eram exímias caçadoras e guerreiras.

Gregos e Amazonas tornar-se-iam inimigos históricos, como mostram alguns relatos: o rapto da princesa Antíope por Teseu, que levou-as a invadir a Ática; o combate entre a rainha Hipólita e Hércules, cujo nono trabalho foi obter o seu cinto de poder; Pentessiléia destacou-se entre suas companheiras enfrentando Ulisses na Guerra de Tróia, tendo sido morta por ele.

Na Antiguidade, como se o poder mágico feminino fosse considerado necessário à vitória, a inclusão de mulheres guerreiras nos exércitos não foi pouco usual, sendo encontradas referências à sua participação entre vários povos.

As Amazonas tiveram uma época de resplendor: ergueram, por toda parte, templos à Deusa Lua; países soberanos governados pelo sexo feminino… O Império das Amazonas se estendeu por grande parte da Europa e do Oriente Médio e até a Ásia. Quem exercia o sacerdócio, quem formava o Governo, quem fazia parte das forças armadas eram as mulheres.

Elas construíram uma poderosa civilização… E ninguém o pode negar. É certo e verdadeiro. Indubitavelmente, houve também algo de cruel. Os meninos de alguma forma eram incapacitados para que não pudessem triunfar: às vezes se lhes feria nas pernas, nos braços ou em outra parte do corpo, para que não pudessem mais tarde exercer o domínio.

Na guerra, as Amazonas se distinguiram extraordinariamente. Recordemos a Amazona Camila, da qual dá testemunho Virgílio, o poeta de Mântua. Obviamente, Virgílio, o grande mestre de Dante Alighieri, fala maravilhas sobre a Amazona Camila. Na guerra, ela foi extraordinária. Pode-se considerá-la como uma das melhores generais da época, muito similar a qualquer outro grande guerreiro do sexo masculino de outros tempos. Na ciência, as mulheres Amazonas sobressaíram-se triunfalmente. Seu império foi poderoso e se estendeu do ocidente ao oriente. Se, mais tarde, aquele império declinou, se decaiu, isto se deveu precisamente ao aspecto sexual. Certo grupo de Amazonas que chegaram à Grécia, e ainda que tenham se isolado por algum tempo, não será demasiado dizer-lhes que se uniram sexualmente a distintos jovens gregos e, desde então, mudaram seus costumes. Essas Amazonas, já mudadas, influíram pois sobre o restante das Amazonas que haviam estabelecido o império e, pouco a pouco, foram perdendo o poder, até que sobressaiu completamente o sexo masculino.

Já havia passado sua época. Nascida tal história com a mitologia grega, espalhou-se durante a Idade Média, chegando aos tempos modernos, tendo o tema inspirado muitos escritores e artistas. Tais amazonas reinariam na região da Capadócia, situada na Ásia Menor.

Plutarco, Hipócrates e Platão fazem referências aos costumes e às façanhas das Amazonas. A estatuária, os vasos e os baixo relevos popularizaram suas lutas e as tornaram um símbolo de vigor e de poder. Segundo alguns autores, o mito das Amazonas representaria a época histórica em que o matriarcado reinou na humanidade. Seu declínio, nessa interpretação, pode estar vinculado ao destronamento da divindade suprema feminina e à substituição de um governo de mulheres. O mito também é identificado com a transição do matriarcado para o patriarcado.

O mito das mulheres guerreiras permaneceu ao longo do tempo presente no imaginário e na história de vários povos: gregos, eslavos, germânicos, celtas, hindus, africanos. Nas sagas nórdicas encontramos as Valquírias, que possuíam o poder de decisão da batalha, recolhendo em seus cavalos alados os corpos mortos para conduzi-los ao Valhala, na versão das Edda ou da Volsunga Saga. Destacou-se entre elas a figura lendária de Brunhilda, rainha da Islândia.

Relatos descrevem a presença de batalhões femininos na Irlanda até o século VII, quando a cristianização, de uma certa forma, condicionou as mulheres a abandonar as armas. Reaparecem menções à presença feminina no exército norueguês, quando de sua invasão à Irlanda no século X.

As guerreiras freqüentavam as epopéias de cavalaria dos fins da Idade Média e início do Renascimento, em momentos de convocação para a guerra, como na Reconquista da Península Ibérica, quando a imagem da mulher guerreira foi intensamente recuperada.

Alguns escritores que trataram sobre “mulheres ilustres” incorporaram quase sempre o mito, inclusive em relação a Joana D’Arc. O mito, além de utilizado em relação à mulher guerreira, também esteve vinculado à legitimação do governo feminino, como no caso de Elisabeth I, da Inglaterra e outras rainhas européias. Na literatura, em relatos e em provérbios, a imagem das Amazonas também se manteve presente. Christiane de Pisan, em 1626, se encantava em expor exemplos de antigas mulheres conquistadoras, acrescentando personagens à lenda das Amazonas.

Essa presença das Amazonas na literatura e na iconografia foi reforçada por viajantes europeus que desde o século XVI se referiam com admiração e espanto às guerreiras entre a população da América e da África. Viajantes portugueses do século XVI informavam de Amazonas na Etiópia e, mais ao sul, na Monomotapa (atual Rodésia). Estas, como as do Daomé, eram guerreiras a serviço de um monarca africano, que lhes havia concedido um território no qual viviam sós.

Em 1493, Colombo, imaginando que iria ancorar na Ilha da Mulher, que segundo Marco Polo ficava no Oceano Índico, escreveu aos reis de Espanha que ouvira falar da Ilha do Matrimônio (atual Martinica), onde viviam apenas mulheres e que usavam armaduras de cobre. Elas apareceram também nos relatos de viagem e no Diário da expedição de Fernão de Magalhães, escrito por Antonio Pigafetta:”Também nos contaram que a Ilha Ocolora, abaixo de Java, é habitada exclusivamente por mulheres. Estas são fecundadas pelo vento e quando nasce o bebê, se é macho matam imediatamente, se é fêmea, a criam. E matam todo o homem que se atrever visitar sua ilha.”

Já em 1524, Francisco Cortés, a caminho de explorar a costa pacífica do México, levava entre suas instruções a de que ficasse atento às Amazonas, que provavelmente ali viviam escondidas entre as árvores.

No Brasil, mulheres guerreiras de tanta coragem quanto, marcaram histórias e lendas e deram origem ao nome de uma famosa região. Em 1541, após descer o afluente Napo e chegar ao então Mar Dulce, nome que Pinzon dera ao Rio Amazonas, eis que Francisco de Orelhana é atacado por uma tribo de mulheres que, no testemunho de Frei Gaspar de Carvajal, “são muito alvas e altas, com o cabelo muito comprido, entrançado e enrolado na cabeça. São muitos membrudas e andam nuas em pelo, tapadas as suas vergonhas, com os seus arcos e flechas nas mãos, fazendo tanta guerra como dez índios”.

Em seu relato, Carvajal narra a seguir que embora abatessem vários índios que eram comandados pelas mulheres e mesmo algumas destas, os espanhóis se viram obrigados a fugir, tendo porém capturado um índio. Este, mais tarde, ao ser interrogado, declarou pertencer a uma tribo cujo chefe, senhor de toda a área (o ataque tinha se dado na foz do Rio Nhamundá), era súdito das mulheres que residiam no interior.

Na qualidade de súditos, obedeciam e pagavam tributos às mulheres guerreiras, que eram acompanhadas pelo chefe Conhori. O prisioneiro, respondendo a várias perguntas do comandante, disse que as mulheres não eram casadas e que sabia existir setenta aldeias delas. Descreveu as casas das mulheres como sendo de pedra e com portas, sendo todas as aldeias bastante vigiadas. Disse ainda que elas pariam mesmo sem ser casadas porque, quando tinham desejo, levavam os homens de tribos vizinhas à força, ficando com eles até emprenharem, quando então os mandavam embora. Quando tinham a criança, se homem, era morto ou então mandavam para que o pai o criasse, se era mulher, com ela ficavam e a menina era educada conforme as suas tradições guerreiras. Descreveu ainda seus hábitos e suas riquezas, pois que tais mulheres possuíam muito ouro e prata.

Outro detalhe importante é que os índios, por desconhecimento da lenda das Amazonas da Capadócia, chamavam as mulheres das tais tribos de Icamiabas, ou “mulheres sem marido”. Diziam os índios que as Icamiabas (ou Amazonas, para os europeus) presenteavam os homens após a cópula com pequenos artefatos semelhantes a sapos entalhados em algum mineral esverdeado, como a pedra de jade (jadeíta) ou a nefrita, por exemplo. O presente era chamado de Muiraquitã.

Isso tudo acontecia durante um ritual dedicado à Lua. Os Muiraquitãs eram pendurados no pescoço do visitante e usados por eles até os próximos encontros sexuais. A tribo de mulheres sem maridos nunca foi encontrada por pesquisadores, mas o mesmo não se pode dizer dos Muiraquitãs. Os pequenos adornos que seriam utilizados nos rituais de fertilidade têm sido encontrados com freqüência na região do Baixo Rio Amazonas, justamente onde Francisco de Orellana diz ter travado uma batalha com as lendárias mulheres.

Diz-se que quem encontra uma pedra de Muiraquitã terá sorte no amor e força contra as doenças. Até hoje, muitos artesãos confeccionam peças similares para vendê-las em feiras de artesanatos da região. Os verdadeiros Muiraquitãs estão em museus ou em coleções particulares.

O encontro e as escaramuças à foz do Rio Nhamundá (hoje limite entre os estados do Pará e do Amazonas) com os índios e/ou as índias somados à descrição do prisioneiro foi suficiente para que houvesse associação com as Amazonas da Capadócia. O rio, até então mar Dulce, passa a ser chamado Rio de las Amazonas (Rio das Amazonas) e finalmente Rio Amazonas. A narração feita por frei Gaspar de Carvajal teve imensa repercussão na Europa e correu mundo atemorizando uns e surpreendendo outros, mas maravilhando a todos os que ouviam falar da terra das mulheres guerreiras.

Depois de longa viagem pelo Amazonas, De La Condamine (1743-44) propagou a lenda das Amazonas americanas pela Europa. Segundo ele, essas mulheres conheciam os segredos das pedras-verdes, e estavam organizadas numa república. Alexandre von Humboldt (1799-1804) também recuperou o mito, levantando a possibilidade de as mulheres de uma ou de outra tribo, fartas da opressiva escravidão em que os homens as mantinham, terem fugido para as selvas, se reunido em hordas e adotado pouco a pouco, para a manutenção de sua independência, um modo de vida belicoso. Assim, a persistência do tema da mulher guerreira e poderosa continua a manter o fascínio e a instigar pesquisadores de diferentes períodos.

Atualmente, pode-se encontrar com mais facilidade mulheres que integram importantes papéis nos meios marciais. Com a crescente violência urbana, houve o aumento do número de aprendizes do sexo feminino em estudos de autodefesa, constituindo uma soma significante em academias e escolas tradicionais. Também no esporte a participação feminina fica visível, fato que encoraja mulheres de todo o mundo a superarem seus limites e a buscarem uma forma de quebrar a vulnerabilidade imposta à figura feminina por tanto tempo. Além das artes marciais, muitas mulheres podem ser vistas integrando as Forças Armadas nas diferentes partes do planeta, restituindo um papel de força, antes atribuídos às mulheres samurai, amazonas e outras mulheres guerreiras da nossa história. »

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3. O Oráculo das Amazonas (Brasileiras)
retirado de http://www.circulosagrado.com/cs/leitura/artigos/amazonas.php

Em torno de 400 a 600 anos atrás, existiu na região Amazônica, próximo às cabeceiras do rio Jamundá, um reino formado somente de mulheres guerreiras, conhecidas como Icamiabas. Elas viviam completamente isoladas, só mantendo contatos esporádicos com homens.

Em certas épocas do ano estas mulheres belas e guerreiras celebravam suas vitórias sobre o sexo oposto. Neste dia, uma grande festividade era organizada e elas desciam do monte onde viviam até o lago sagrado denominado “Yaci Uarua” (Espelho da Lua).

Durante à noite, quando a Lua deitava sobre o espelho d’água, as Amazonas mergulhavam nela com seus corpos fortes e morenos. Após este ritual de purificação e limpeza, estas deusas da Lua clamavam pela mãe do Muiraquitã. Os estudiosos folcloristas identificaram esta entidade como uma fada, mas ela também cabe na classificação de Grande Mãe. Era ela que entregava a cada uma daquelas mulheres uma pedra da cor verde (jade), denominada de “Muiraquitã”, onde encontravam-se esculpidos estranhos símbolos. Cada nativa trazia em seu pescoço seu talismã propiciatório de proteção material e espiritual. Mas elas também os presenteavam àqueles que seriam os futuros pais de seus filhos. Estes homens eram selecionados para fecundá-las e depois eram mantidas vivas as meninas, que mantinham a continuidade da casta matriarcal das mulheres guerreiras.

As Amazonas foram vistas pela primeira vez pelo padre espanhol Gaspar de Carvajal, cronista da expedição de Francisco de Orellana. Tal encontro ocorreu no lugar exato onde o rio Negro encontra-se com o Amazonas e não foi muito atraente a estada para estes exploradores. Ao chegarem a aldeia das índias, constataram que no centro de uma praça erigia-se um ídolo, que era o símbolo de uma poderosa Senhora, Rainha de uma grande nação de mulheres guerreiras. Uma dúzia de guerreiras investiram contra os espanhóis e tiraram a vida de vários indígenas que os acompanhavam. Carvajal as descrevia como sendo mulheres altas, belas, fortes, de longos cabelos negros, tez clara e que andavam totalmente despidas, com arcos e flechas e guerreavam como dez índios.

Esta descrição nos remete à um coração de uma caçadora também solitária, Ártemis. Estas mulheres índias representam o arquétipo mais puro e primitivo da feminilidade. Foram deusas nativas que santificavam a solidão, a vida natural e primitiva a qual todos nós podemos retornar quando acharmos necessário a busca de nós mesmos. Como Ártemis, elas possuem um amor intenso pela liberdade, pela independência e pela autonomia. Um amor que pode transparecer como agressão, pois elas sempre irão lutar para preservar sua liberdade.

Buscas Arqueológicas

Dezenas de buscas arqueológicas sucederam-se no Brasil, mas é somente na Região Norte que os guerreiros nórdicos voltam à vida e a história.

Em torno de 1871, João Barbosa Rodrigues, um naturalista, foi designado pelo Império para explorar as imediações dos rios Tapajós, Trombetas e Jamundá. Ele recolheu amostras vegetais e catalogou dados etnográficos, retornando a capital no ano de 1875, publicando em seguida, seus estudos.

A região do rio Jamundá foi escolhida por ser o local onde se presumia ser o habitat das míticas guerreiras amazonas. Nas proximidades da cidade de Óbidos, Rodrigues encontrou vestígios de uma antiga aldeia indígena, que suspeitou ser a tribo da qual as amazonas faziam parte. À medida que dava prosseguimento às escavações, mais aumentavam suas esperanças. Surgiram um grande número de cerâmicas quebradas e machados. Imediatamente Rodrigues reconheceu que os fragmentos desenterrados eram bem semelhantes aos já encontrados no Peru e na Escandinávia. Tudo indica que realmente existiu um elo de ligação entre a Europa e o Brasil e, existiu um povo mais civilizado do que se suponha, habitando estas paragens. Entre eles estavam as nossas amazonas.

Os Muiraquitãs

Os muiraquitãs têm formas e tamanhos variados, mas geralmente não passam de dez centímetros. São talhados em pedras de cor verde ou azulada (nefrita, jadeíta ou amazonita) e se apresentam normalmente sob a forma de batráquios e felinos. Alguns destes ídolos possuem um orifício, que possivelmente seja para passar um cordão e pendurá-lo no pescoço. Há quem diga que tal perfuração também podia indicar a condição do feminino, estabelecendo assim uma associação direta com a lua.

Hoje, muito poucos originais muiraquitãs existem no Brasil, a maioria foi roubada, comprada ou traficada. O seu maior poder reside em suas propriedades medicinais e na capacidade de predizer o futuro. Alguns habitantes da Amazônia que os conservam afirmam que é necessário aproximar-se das margens de um rio ou lago numa noite de lua cheia para despertar os poderes deste fabuloso talismã. O ídolo deve permanecer por longo tempo submergido em água e, em seguida, colocado pelo devoto sobre sua testa. Os muiriquitãs arredondados são específicos para as mulheres, enquanto que os maiores e mais longos devem ser usados pelos homens. Existem também aqueles que apresentam cabeça de felinos, que são apropriados para os varões e, são usados mais para saber o futuro sentimental ou sexual, pois o simbolismo da onça nos remete à fecundidade e ao poder masculino.

O talismã de cor esverdeada mostra o futuro amoroso, enquanto que os azulados são propícios para desvendar o futuro econômico e material. Quando mais polida for a superfície do amuleto, melhor é para visualizar as previsões. Muitas pessoas utilizam glifos da região amazônica para suas adivinhações. Mas estas inscrições pré-históricas devem ter a forma e simbologia dos muiraquitãs.

As pessoas que desvendam estes segredos costumam aproximar sua testa destes símbolos de pedra e formulam, então, as perguntas que dizem respeito a seu futuro, para que a pedra sagrada possa revelá-lo. Comenta-se que para empreender esta tarefa é necessário jejum e abstinência sexual, ou até mesmo ingerir uma infusão de guaraná.

Recentemente, mulheres descendentes das Amazonas começaram a esculpir em pequenas pedras o muiraquitã, com o objetivo de resgatar a cultura, tradição e poderes. Elas só podem ser talhadas em noite de lua cheia e somente elas podem utilizá-los.

“Ainda hoje, para muitos, o muiraquitã é uma pedra sagrada, – escreve Barbosa Rodrigues – tanto que o indivíduo que o traz no pescoço, entrando em casa de algum tapuio, se disser: muyrakitan katu, é logo muito bem recebido, respeitado e consegue tudo o que quer.” (ORICO, Osvaldo)

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4. (em breve) 
Aguarde

Responses

  1. olá eu não sou do sexo feminino , porem minhas ancestais são indias da amazonia e guerreiras, essa herança de sangue também pertence a minha aó materna e paterna e a minha mãe e agora a mesma herança e espirito guerreiro tbm despertou em mim.
    e meus personagen heroicos , são mulheres entre elas a xena e gabriele…etc…

  2. Bem-vindo, W! Espero que o blog te inspire a honrar suas ancestrais e a escutar seu espírito guerreiro.🙂

  3. estou em busca de traselo a tona
    presciso de mais inforações , sabe alguma outra fonte o qual eu possa busca-lá
    seu site foi de grande ajuda irmã,mas gostaria de saber mais

  4. W rodrigues, veja os links ali em cima, ‘Aldeias’, tem bastante coisa em inglês

  5. Oi Espartana Guerreira!
    Alguma utilidade para o texto que traduzi? Se precisar de minha ajuda, me avise! Se e que uma guerreira precisa da ajuda de um homem!
    Abracos,
    TheLegionary

  6. as mulheres eram tratadas como escravas , mas mostraram que são fortes e tenho orgulho de ser mulher

  7. Incrível, um Blog sobre amazonas! achai muito bom o seu Blog! até porque fala de coisas que eu me interesso muito! parabéns, seu Blog é ótimo!

  8. Obrigada, Raphael!

  9. Muito boa pesquisa. Parabéns.
    Estou tentando fechar geograficamente as tribos amazonas da ficção Xena.
    Sabes algo a respeito?
    obrigada.
    Mára

  10. Sou filha de Oyá (Iansã) Orixá da guerra, nós filhas desse Orixá recebemos forte influência dela. Dizem que Oyá aprimorou sua arte de guerrear com as Amazonas. Eu sou guerreira. Amei seu blog


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